Luciano Andrey é atorzão. Aos 32 anos, com experiência de 17 no palco, conduz com verdade o musical Priscilla, Rainha do Deserto, do qual é o protagonista. Antes mesmo da estreia do espetáculo, já tinha arrancado elogios rasgados dos mesmos diretores que montaram Priscilla na Broadway e no West End. Com a peça em cartaz (e bombando!) em São Paulo, leva às lágrimas 1400 pares de olhos, seis vezes por semana, quando seu personagem, Tick, encara seu filho pequeno.
Na trajetória até seu 4º grande musical, Andrey já pediu dinheiro no meio da estrada, usou uma coleira inspirada em Luma de Oliveira e – vejam só – teve um ônibus velhaco que vivia quebrando pelo caminho. Não necessariamente nesta ordem.
Antes de se jogar na entrevista do ator-cantor-gato, vale saber que suas opiniões podem – antes de tudo – causar estranheza. Por exemplo, ele prepara para as audições músicas do próprio musical e faz cena desde o primeiro contato com a banca.”Mas essa é só a minha opinião!”, ressalta várias vezes.
Antes de pilotar o ônibus Priscilla, Luciano Andrey esteve em My Fair Lady, West Side Story (Riff) e O Rei e Eu (Kralahome). Em 2011, ficou em cartaz como protagonista da comédia Mambo Italiano. Na Escola de Arte Dramática da USP, foi a Geni da montagem de Iacov Hillel da Ópera do Malandro, que causou histeria e virou referência na classe teatral.
As fotos produzidas para este Zieg Zoom são de Otavio Dias.
É tempo de Luciano Andrey.
Mr. Zieg - Você é ator há 17 anos. Como tudo começou?
Luciano Andrey - Comecei a fazer teatro com 15 anos, quando eu criei coragem e tive grana para pagar um curso. Mas antes eu já sabia que queria ser ator. Não sabia muito bem para onde isso ia, mas já tinha dentro de mim que eu queria ser ator. Eu me lembro que na escola, quando eu tinha uns 11 anos, eu me oferecia para fazer tudo, mesmo sendo muito tímido. Tinha a semana do folclore e perguntavam: “quem quer ser a mula sem cabeça?” E eu levantava a mão. “Quem quer o saci-pererê?” Eu levantava a mão. Daí tinha a semana do índio: “quem quer ser o índio?” Era eu que levantava a mão. Às vezes eu fazia um personagem, saia de cena e voltava para fazer outro. Na época eu era muito tímido… E ainda sou um pouco. Quando eu fazia alguma coisa relacionada a teatro, eu me encontrava e me sentia bem, mas se me mandassem falar com as pessoas em outra situação, eu ficava envergonhado. Eu não falava muito, nunca fui o mais popular, então ficava no meu canto. E também era bem gordinho.
Daí estudei teatro dos 15 aos 17 anos e, aos 18, eu me profissionalizei. Montei uma companhia de teatro em Campinas com dois amigos, o Beto Lázzaro e a Luciana Alcaraz, e por conta disso tirei o meu DRT (registro profissional de ator). Era uma companhia de repertório que durou pouco mais de três anos. A gente tinha quatro espetáculos. Começamos com A Flauta Mágica, da Ruth Rocha. Foi muito legal, porque eu era muito novo e a gente fazia tudo nessa companhia: produção, cuidava da frente de vendas dos espetáculos para outras cidades, trabalhava como ator, fazia iluminação, montava luz, levantava cenário. No começo a gente bancou no nosso bolso. Eu tinha feito um acordo no meu emprego anterior e consegui ser mandado embora, então usei o que recebi na rescisão para fazer a companhia girar enquanto não ganhávamos dinheiro. O Beto, que era meu sócio, dirigia os espetáculos e também o ônibus no qual a gente viajava. Foi uma grande experiência, mas eu também diria que envelheci dez anos em três.
A gente tinha um ônibus muito velho que vivia quebrando no meio da rua. Uma vez um mecânico teve de ir a uma cidade vizinha buscar umas peças e eu fui junto, mas esqueci de pegar dinheiro. Quando chegou no pedágio, não tínhamos como pagar e a moça da cabine disse que eu tinha que pedir para os carros. Como assim pedir pros carros? Ia virar pedinte? Dei sorte que um cara parou logo, disse que já tinha passado por isso e me deu o dinheiro inteiro do pedágio. A gente fazia peça em escola, quadra, montava caixa preta com perna, com tapadeira, iluminação com vara… Obviamente tudo muito simples, mas com o máximo de qualidade que a gente conseguia manter, que era no que a gente acreditava. Na nossa montagem de A Flauta Mágica tinha trechos da ópera original, de Mozart, e eu achava o máximo porque acreditava que as crianças precisavam ter o mínimo de contato com isso.
Mr. Zieg - E o ônibus era de vocês?
Luciano Andrey - Era nosso. Nos primeiros meses da companhia tínhamos que pagar um frete ou conseguir uma picape emprestada cada vez que vendíamos alguma produção para levar as coisas, mas não cabia direito a iluminação, o cenário… Daí a gente comprou um ônibus ‘pau-véio’ por uns R$ 15 mil. Eventualmente quando não tinha estadia, a gente dormia no ônibus. Era uma coisa beeem mambembe. Foi o ônibus que fez o trabalho durar mais de três anos.
Mr. Zieg - E você decidiu mudar para São Paulo por que?
Luciano Andrey - A gente teve a companhia por três anos, mas chegou um momento que as coisas ficaram difíceis, porque caímos na bobagem de fazer um empréstimo para montar uma grande produção de um espetáculo infantil, e a peça não foi muito bem. Foi quando eu me vi completamente sem dinheiro, devendo, e então decidimos fechar a companhia. Eu também não estava feliz em Campinas porque não acreditava no teatro que era feito na cidade. E resolvi vir para São Paulo para ver como era. Eu assinava uma revista que era a Mártir Cultural, que falava das coisas que aconteciam em São Paulo, da lei Rouanet… Só que eu não tinha dinheiro para vir. E isso não é um eufemismo – eu não tinha mesmo. Uma amiga, a Ângela Resta, era gerente de um restaurante chique e disse que podia me dar R$ 200. Eu vim para São Paulo com R$ 200. Na primeira semana, fui a um grupo que ficava na praça Rossevelt, o grupo Ria, que fazia peças para vestibular e eu achava o máximo porque se sustentava… O cara me disse que não tinha trabalho, mas me ligou no dia seguinte dizendo que precisava de um stand-in para o menino que fazia o Brás Cubas. Eu ensaiei dois dias e, no terceiro, eu entrei no lugar dele. Pelo menos eu tinha um trabalho e os meus R$ 200 viraram R$ 800 por mês.
As coisas continuaram difíceis. Quando eu estava já começando a pensar em voltar para Campinas, um amigo me falou para eu prestar a EAD (Escola de Arte Dramática da USP), que era uma das escolas mais conceituadas do país e que, se eu entrasse, ainda poderia conseguir moradia na USP. Eu nem sabia o que era EAD porque vivia em Campinas bitolado no meu trabalho, mas fui prestar. Se eu não entrasse, ia tentar outra coisa da vida. Mas eu passei de primeira. Foi muito difícil, mas acho que foi muito de estar no lugar certo na hora certa. Lembro da minha entrevista, que era parte da seleção, em que eu disse para a professora: quero entrar aqui porque já vivo como ator e é uma coisa que eu quero fazer, porque eu preciso de um lugar para morar e porque eu estou ficando velho . Eu tinha 23 anos na época.
Mr. Zieg - Estudar na EAD foi fundamental na sua formação?
Luciano Andrey - Fundamental. O foco principal da EAD é a interpretação. Você aprende as outras coisas se for interessado, mas a base é a interpretação. E eu trabalhei com muitos diretores diferentes que estão no mercado em São Paulo e são muito respeitados, como o Iacov Hillel, a Cristiane Poli Quito, o Celso Frateschi e a Bete Dorgam, com quem eu aprendi uma coisa que eu carrego para a minha vida, que foi a trabalhar através do amor. Ela nunca levantou a voz… Eu tinha respeito e admiração profundos. Ela conseguia agregar todo mundo de uma maneira extremamente amorosa. E eu acredito muito nesta maneira de trabalhar, eu não funciono sob pressão e eu não gosto de trabalhar assim. Quando dirijo alguma montagem, eu gosto de trabalhar por este caminho porque, para mim, é o que dá certo. Com ela eu aprendi muita coisa. Eu me lembro de uma época em que estava completamente sem grana, trabalhando como garçom por R$ 320 por mês, e eu comecei a faltar na escola para poder trabalhar mais horas e ganhar mais dinheiro. Daí eu cheguei para ela e disse que estava pensando em trancar a escola, querendo ouvir ela dizer para eu ficar, tadinho, que precisavam muito de mim… E ela me respondeu: “Tranca. Se não está dando, tranca e depois volta quando puder, simples assim.” Eu disse que não queria, e ela continuou: “Ué, você precisa escolher se quer ganhar mais dinheiro ou se quer continuar assim e terminar o seu curso.” E com todos os perrengues do mundo que eu passei de grana, eu terminei a escola sem trancar nenhum semestre.
Artisticamente foi lá que tive a minha formação em todos os aspectos. Desde coisas que eu olho e admiro e tenho vontade de fazer, até as coisas que eu olho e falo: “isso não é o que eu quero fazer, isso não é para mim.” Uma escola assim te abre para muitas coisas, desde que você não seja bitolado só naquilo, desde que você consiga ter um pouco mais de percepção do mundo. Ter um diálogo, um debate, é fundamental para o ator que pensa em vez de ficar só dizendo amém. Se me perguntam qual é o método que eu uso, se é Stanislavski ou outro, eu vejo que não há um método, que é tudo bagagem do que você aprendeu. E também tem muito do instinto. O Dean [Bryant, diretor associado do Priscilla] queria mudar um trecho de um número um dia antes da primeira apresentação. Eu falei pra não fazer aquilo naquele momento, que não seria legal, então ele foi perguntar para o Simon [Phillips, diretor-geral] e voltou com a seguinte resposta: “Faz o que você quiser porque os seus instintos são sempre melhores do que as opções que eu te dou.” Então eu acho que eu ainda sou um ator muito instintivo, que eu faço muito o que eu tenho vontade de fazer, então a vantagem de ter um diretor parceiro é que ele te dá um feedback sobre o que você está propondo. Então a EAD foi importante porque eu pude arriscar muita coisa e fazer muita coisa que eu não teria oportunidade de fazer fora, de personagem, de construção, de estilo, de improvisação, de prontidão, de presença cênica e de coisas que eu uso nos trabalhos que faço.
Mr. Zieg - Quem está começando e quer trabalhar com teatro musical precisa fazer um curso de formação?
Luciano Andrey - Acho que os caminhos divergem. Uma das coisas que eu aprendi nessa profissão é que não dá para você se comparar com os outros. Dá para se espelhar em alguém que você admira. Há pessoas que começam muito cedo e acabam aprendendo pela prática, mas se eu pudesse escolher, eu teria começado a estudar canto e dança junto com o teatro, aos 15 anos. O fato é que é importantíssimo estudar. Não dá para você fazer canto há 3 ou 4 meses e achar que já é cantor. Não dá para você fazer um cursinho de teatro uma vez por semana e achar que é ator. A gente está em constante aprendizado. Principalmente quando somos muito jovens, quando estamos muito suscetíveis à palavra, um curso de formação pode dar uma base melhor . Nessa fase a gente é autossuficiente demais, a gente acha que sabe tudo, que pode tudo… E não é bem assim.
Mr. Zieg - E quem é mais velho, ainda pode começar?
Luciano Andrey - Pode começar! Eu digo por mim. O fato de eu ser ator desde os 15 anos obviamente ajudou muito na minha carreira em teatro musical, porque quando eu comecei, eu praticamente não cantava e praticamente não dançava. Eu sei que foi o meu teste de canto com a minha interpretação que fez com que eu passasse para o espetáculo My Fair Lady. Foi a interpretação que fez com que o Jorge Takla e a Tania Nardini achassem que eu fazia aquilo bem, então dá para começar. Eu comecei a estudar canto e dança com 26 anos, e eu consigo trabalhar com isso e fazer bem. Óbvio que se você tem 35 anos e nunca trabalhou na área fica mais limitado porque as pessoas não te conhecem, nunca te viram fazendo nada, mas ao mesmo tempo dá para fazer porque tem personagem de 35 anos. Tem espaço se você é dedicado.
Mr. Zieg - Ao concluir a EAD, você ficou em cartaz com a Ópera do Malandro, que foi um fenômeno de público e de crítica na época e que ainda é referência de montagem. Vocês esperavam tamanha comoção diante do espetáculo? Como você pegou a Geni?
Luciano Andrey - A Ópera do Malandro para mim foi um divisor de águas. Até aquele momento, na escola, nós podíamos fazer os personagens que tínhamos vontade quando estudávamos os textos. Aquela era a primeira montagem e o Iacov [Hillel, diretor] fez uma estrutura cartesiana, com o espetáculo montado do começo ao fim, ou seja, com um ator só fazendo cada personagem. E quem queria fazer a Geni? Todo mundo. Eu falei que queria fazer, mas achava que nunca pegaria porque não tinha perfil. Na leitura, eu tinha feito vários malandros e, no último dia, o Iacov perguntou se alguém queria tentar um personagem que não tinha feito. Eu levantei a mão e pedi para ler a Geni. Eu li e rolou um silêncio na sala. No dia seguinte, o diretor chegou e disse que faria um teste de canto, já que todo mundo queria fazer a Geni, o que nunca tinha acontecido na escola. E eu peguei o papel. Depois ele me disse que nunca tinha pensado em mim para fazer porque eu tenho cara de homem, corpo de homem, sou troncudo… Mas que na leitura viu em mim uma Geni mais andrógina, menos estereotipada, que tinha um lado masculino muito forte, além do lado feminino da personagem. O processo foi muito sofrido porque o Iacov é uma pessoa muito rigorosa, ao mesmo tempo que tem uma experiência muito grande com esse tipo de trabalho e sabia exatamente o que queria. Mas foi muito bom e a gente não esperava que a recepção fosse tão boa.
Eram 200 lugares na sala, a gente fazia o espetáculo todo dia para 400 pessoas e mais 400 iam embora. Foram 25 apresentações, de quarta a domingo (um treinamento para teatro musical!) e a Geni foi uma coisa louca, que de alguma maneira me descobriu. Eu nem sei dizer se eu descobri a Geni ou se a Geni me descobriu, no sentido de que eu vi que eu podia fazer aquilo. Eu lembro até que a crítica da Folha de S.Paulo, do Sérgio Sálvia Coelho, dizia alguma coisa do tipo: “Luciano Andrey fica à espera do seu momento até a grande surpresa na cena da virada da Geni.” E era exatamente isso. Ninguém imagina a virada que ela vai dar… E isso ficou forte também pela nossa construção coletiva. Naquele ano, a Luma de Oliveira tinha saído no Carnaval com aquela coleira do Eike, e um amigo que é ator e figurinista, o Antonio Vanfill, sugeriu que eu usasse uma coleira escrito ‘Max‘. Era um detalhe que ajudava a compor a linguagem que a gente tinha construído do espetáculo, trazendo a história para os dias atuais, com os malandros como fugitivos da Febem… Sem subverter no mau sentido o texto do Chico Buarque, a gente trouxe tudo pra cá e as pessoas piravam com isso.
E na cena da Geni era quando as pessoas enlouqueciam, mesmo, não é porque eu fazia… Eu lembro que eu era reconhecido na rua, estava loiro, com um cabelo grande… Uma vez uma menina passou de ônibus na Paulista e começou a gritar: “Geniiiii, Geniiii”, e eu fingindo que não era comigo, mas ela continuava gritando. Daí o ônibus parou do meu lado, eu olhei, dei um tchauzinho e ela gritava: “Geniii, linda, linda!” E eu pensava: “no meio da Paulista, meu Deus!” Então foi muito legal porque me preparou para muita coisa. Uma professora disse que naquele momento ela viu meu prazer em cena, me viu pleno, mesmo não dominando o canto. Aliás, hoje eu ouço as gravações e falo: “misericórdia!”. Mas naquele momento, com o material que eu tinha, eu estava pleno.
Mr. Zieg - E como você começou a cantar?
Luciano Andrey - Essa história é engraçada. Um pessoal da Casa de Artes Operária foi assistir à Ópera do Malandro, alguns alunos que estavam montando Rent, a Kiki, Cristiane Longhi - uma querida – e a Ana Taglianetti, que é a dona da escola. A Ana veio falar comigo, dizendo que tinha ficado muito impressionada e que eu tinha de fazer musical, porque era um mercado que estava precisando de bons atores, que não podiam ser só cantores e tal… Eu agradeci pelo elogio, mas ela continuou: “Você faz aula de canto? Vá à minha escola.” Imagine, eu morava no CRUSP, não tinha dinheiro! E ela disse que, se eu desse aula de interpretação, ela me daria aula de canto. E foi assim que eu comecei, com a Ana, em 2006. Eu achava difícil – e ainda acho, na verdade. Quatro meses depois, teve teste para o My Fair Lady e ela falou para eu fazer. Eu achava que não fazia sentido ir porque encontraria um monte de cantores, mas ela insistiu, disse que eu não passaria vergonha, que o [Jorge] Takla gostava de bons atores e eu fui.
Mr. Zieg - Como foi cantar no teste para o My Fair Lady?
Luciano Andrey - Eu fui cantar e eu não sabia quem era o Jorge Takla. Imagine, tinha saído da EAD, só tinha referência de teatro de grupo, de teatro de pesquisa, Teatro da Vertigem, Galpão do Folias, Companhia do Feijão… Daí fui fazer o teste do My Fair Lady e estavam na banca, mas eu não conhecia, o Jorge, a Tania Nardini, o Miguel Briamonte, uma turma. Eu cantei uma música do Freddy, do próprio My Fair Lady, fiz uma cena – porque raramente eu só paro e canto, acho que precisa de alguma coisa a mais, mesmo que seja só no olhar – e o Jorge Takla me disse: “Legal, você tem uma voz bonita, mas você fugiu da parte aguda, né?” E eu respondi: “Não, não fugi não! Imagina. Quer ver? Toca aí de novo pra mim!” Eu pedi para o pianista repetir, cantei de novo e o Jorge disse: “É, não fugiu mesmo.” Hoje eu lembro e penso: “meu Deus, eu falei isso para o Jorge Takla”. No começo você não tem referência, né? Não foi arrogância… Eu simplesmente achava que eu não tinha fugido da parte aguda.
Mr. Zieg - Você sempre canta música do próprio musical em teste. Por que? Em geral os professores aconselham a fazer o oposto.
Luciano Andrey - Eu imagino que peçam para cantar músicas de outro musical porque, se você prepara a música do protagonista, por exemplo, e eles não te veem como o protagonista, acabam chapando a sua imagem e não te considerando para mais nada. Eu já ouvi essa teoria. Ao mesmo tempo, eu acho que é uma questão de foco. Se você quer fazer aquele personagem e não outro qualquer, você vai focado. Mas essa é a minha opinião. Claramente não é uma coisa certa ou errada – é só a minha opinião. Mas eu vou focado naquele personagem. Se não me virem para outra coisa, paciência, é um risco que eu estou correndo. Mas podem, sim, me ver para o personagem que eu quero, daí que legal. Ou pode ser que mesmo eu fazendo um teste para um personagem, me vejam para outro… Acho que não existe muita regra. Para o Priscilla, eu cantei música do musical. Para Evita, West Side, My Fair Lady… Eu sempre cantei músicas do musical. Normalmente estes são os testes que eu passo! É o que eu vejo mais sentido. Eu prefiro focar.
Mr. Zieg - Você faz ‘cena’ logo na primeira fase de um teste de canto?
Luciano Andrey - Faço! Cena é uma palavra delicada… Mas de alguma forma é cena, sim. Eu não canto paradinho. Nunca vão me ver cantando parado, olhando para o horizonte, nem na primeira fase. Eu construo na minha cabeça uma linha de raciocínio para a música. O que eu tenho de fazer em cada hora, o porquê, os objetivos… No teste para o West Side Story, uma das músicas que eu peguei era a do Officer Krupke, que tem 8 personagens diferentes. Fiquei pensando o que eu ia fazer com aquilo, que não podia fazer parado… E vi que minimamente eu tinha de fazer uma voz diferente para cada personagem. Foi o que eu fiz, e era o primeiro teste de canto. Foi a mesma coisa com Evita, O Rei e Eu, Priscilla… Só não dá para preparar algo mirabolante que tire o foco do seu canto, levar uma barraca… Mas acho que faz diferença – minha opinião também – que tenha alma, que não sejam só as notas.
Mr. Zieg - Enquanto estudava, suas referências eram principalmente de teatro de grupo, certo? Foi tenso fazer um musical logo de cara, assim que se formou?
Luciano Andrey - Foi tenso. Na época, o teatro de grupo estava muito forte, com a Lei do Fomento, com o Teatro da Vertigem que estava fazendo dez anos… E era uma coisa que eu gostava muito, tanto que pretendia entender e participar daquele universo. Apesar de achar umas coisas chatas demais, de ter preguiça de quem faz teatro que ninguém entende, que só atinge quem leu muito… Porque acho que o teatro tem que ter uma ação transformadora. Aí eu caí numa megaprodução, assinando ponto, vendo quem chegava atrasado tomar canetada… E eu achava que não podia ser daquele jeito, que não estava certo… Mas é! E eu vejo o quanto isso funciona, o quanto essa disciplina faz falta em alguns segmentos. E ao mesmo tempo que você tem uma cobrança muito grande, você tem um respaldo também. Existe o mau hábito de se ver o teatro como algo que não precisa ser remunerado, já que a pessoa está amando fazer. Mas é um trabalho como outro qualquer. E obviamente eu sou uma pessoa privilegiada porque eu amo o que faço e, hoje, no Priscilla, eu me sinto pleno, mas é o meu trabalho, eu vivo disso, então preciso ser remunerado e reconhecido.
Mr. Zieg - Quando a história de fazer teatro musical ficou mais tranquila para você?
Luciano Andrey - O My Fair Lady foi difícil porque foi um choque de realidade. Eu só fui entender a importância do trabalho muito depois. Eu vim de uma escola em que se trabalhava muito como ator-criador. Daí fui fazer um espetáculo como ensemble e o meu plot de personagem era o menor do elenco inteiro. Então eu gostava de fazer, mas não me satisfazia completamente. Em alguns momentos eu achava que nunca mais ia querer fazer musical na vida. Tinha um momento do espetáculo em que eu era um dos criados do Professor Higgins e fazia uma entrada, no escuro, para tirar uma gaiola de cena. Só isso. E o meu criado, que eu criei na minha cabeça com muito cuidado para não tirar o foco da cena, era um personagem um pouco mais delicado. E era porque eu tinha uma peruca que eu odiava, que tinha uma franja escorrida, eu ficava um bicho, era uma coisa meio emo, então eu criei um tique e ficava botando a franja atrás da orelha. E eu tinha certeza que ninguém estava vendo. Um dia a Tania [que era diretora residente] estava dando uma nota, na frente de todo mundo, e disse: “Aquela hora que você vai tirar a gaiola, você está fazendo uma coisa muito legal, que você descobriu do seu personagem, mas faz mais assim, mais assado…” E eu percebi que eles estavam vendo tudo! Viam que de alguma maneira eu estava contribuindo para o trabalho, que eu não estava ali só batendo o cartão, que estava contribuindo para contar a história.
Já o West Side Story foi muito legal, porque antes da audição eu falei para o Takla que tinha vontade de fazer teste para o Chino. Daí ele disse: “Ah, querido, muito difícil porque precisa dançar muito e não sei se você vai conseguir fazer.” Depois teve uma reunião com o elenco de My Fair Lady e perguntaram quem ia fazer o teste. Eu fui um dos únicos a não levantar a mão. O Jorge perguntou o motivo e eu disse que não faria porque não era bailarino, mas ele disse para eu fazer porque era bom ator e estava fazendo aulas de dança. No dia do teste, eles se assustaram comigo porque estavam acostumados a me ver fazendo uma coisa mais introspectiva, mas eu fiz um bom teste de canto, atuando, e um teste de dança em que fui bem. Foi quando eu percebi que tinha aprendido coisas enquanto eu fazia o My Fair.
E eu peguei um personagem que eu amei. Inicialmente passei para coro, mas a Tania me ligou um dia e perguntou se eu poderia estudar também o Riff porque tinha a possibilidade de eu ser cover. Eu estudei o personagem e, quando começaram os ensaios, eu não via ninguém lá fazendo o Riff. Um dia o Jorge chegou do meu lado e disse: “você está pensando de quem você vai ser cover, né? Você não percebeu ainda que não tem ninguém, que é você?” Aí eu gelei, durante um dia eu paralisei, durante a aula de dança eu não conseguia fazer chassé porque meu cérebro ‘congelou’. E foi um grande divisor de águas. Eu conhecia Romeu & Julieta, sempre quis fazer Shakespeare, fiz o papel que corresponde ao Mercutio do Romeu & Julieta, que para mim é um dos personagens mais incríveis, e dentro do teatro musical, que era a oportunidade de mostrar meu trabalho. E foi um grande desafio porque este personagem foi feito para um bailarino e eu não era bailarino – eu não sou bailarino. E lembro do Jorge me falando uma frase que era: “você é bom ator o suficiente para fazer eles acreditarem que você é um bailarino.” O West Side Story foi muito importante para o meu amadurecimento e crescimento. Pena que a temporada foi muito curta, mas no tempo que durou, a gente foi muito feliz.
E eu criei relações muito profundas com pessoas que eu conheci ali. Primeiro com o próprio Jorge Takla, que tenho muita admiração por saber que ele produz os espetáculos por amor. Por ver claramente que, acima de tudo, está a preocupação com a qualidade artística da peça e que ele não mede esforços para garantir essa qualidade. Além disso, ele enxergou em mim lá no começo uma qualidade de ator, e ele é um dos únicos que procura ver isso em alguém. Foi na mesma época que me aproximei também da Bianca Tadini. A gente gosta muito do trabalho um do outro e se ajuda muito. Eu acho que ela tem um entendimento do trabalho do ator muito legal e é das poucas pessoas com quem eu posso falar sobre teatro com a certeza de que ela sabe tudo o que está falando. Ela está sempre buscando se aperfeiçoar, sempre estudando, tentado aprender com as deficiências dela, que é o fundamental.
Mr. Zieg - Você acha que as produções estão buscando mais profissionais que tenham base forte de atuação?
Luciano Andrey - Não sei dizer se é uma tendência, mas o mercado de teatro musical no Brasil é muito novo. Há alguns anos, a formação de quem fazia os espetáculos era basicamente de canto. Agora vemos essa enorme evolução dos musicais por aqui e, com ela, uma exigência maior não só de quem seleciona o elenco, mas também de quem assiste. As pessoas estão criando referência, então exigem mais. E no musical tem que cantar, não tem jeito, mas ainda assim é teatro, então não basta só isso.
Mr. Zieg - Você se espelha em algum ídolo no teatro?
Luciano Andrey - Para mim um exemplo é o Hugh Jackman, para mim ele é um fenômeno. Eu o conheci como ator e só fui saber depois que ele era antes de teatro musical. Obviamente ele tem muita coisa aliada, um porte físico incrível, mas além do que a gente vê de atuação em filmes, o cara canta e dança pra c******! Se um dia eu for um terço do que ele é já está bom. E é legal quando você vê as pessoas que não se mecanizam. Em geral são essas pessoas que me interessam, que estão vivas, aprendendo e melhorando o tempo todo. Aqui no Brasil, de teatro que não é musical, tem um ator que eu admiro muito, que é o Marco Antonio Pamio, que tem uma versatilidade e uma prontidão muito legais. De TV tem muitos, o Lima Duarte, o Antonio Fagundes. No cinema, o Anthony Hopkins, dos ‘novos’, o Christian Bale, o Edward Norton. Tem bastante gente.
Mr. Zieg - O Tick, do Priscilla, é seu terceiro personagem gay. Você acha que eles contribuem para a reflexão sobre a tolerância?
Luciano Andrey - A Ópera do Malandro eu não sei se contribui ou descontribui, porque a Geni no final é bem filha da p***. O Mambo Italiano, que é um texto de teatro, mostra um outro lado da moeda, sem ser panfletário. Principalmente por vivermos em um país extremamente machista, em que a mulher ainda é subjugada, eu acho que qualquer espetáculo que tenha conflito, que faça as pessoas pensarem sobre o preconceito, é válido.
No Priscilla tem uma coisa muito legal: os personagens principais são duas drag queens e um transexual, que são muito bem recebidos pela plateia. A gente vê gente ligando para o teatro depois da sessão para agradecer, dizendo que foi o melhor espetáculo que já viu na vida, dizendo que saiu transformada. De alguma maneira, as pessoas estão sendo tocadas por aquela relação deles. E o que eu acho bacana é que tem muita gente que, em algum momento da peça, esquece que a Bernadette [Rubinho Gabira] é um transexual e isso vira segundo plano. Chega um momento que as pessoas começam a torcer pela história de amor dela com o Bob, o personagem do Saulo [Vasconcelos], então eu acho que transcende a questão da sexualidade. No caso do Tick, ele já foi casado com uma mulher, tem um filho, tem medo de não ser aceito por este filho porque ele é uma drag queen. Ao mesmo tempo, o público acompanha as transformações vividas pelo Adam, que é o Andrezinho [Torquato].
Então é a oportunidade que as pessoas têm de vê-los como seres humanos e não como “três bicha”. Porque é muito fácil enxergá-los como “três bicha” que estão cantando e dando pinta. E a nossa preocupação maior criando os personagens era a de não reforçar estereótipos. Já tem muita gente que pensa que “veado é isso”, que “veado é aquilo”, os meninos que levam lâmpada na cara, que levam machadada, pai que perde orelha porque acharam que ele estava de caso com o filho… Então a minha intenção na construção deste personagem especificamente foi a de não reforçar nenhum tipo de preconceito. É a minha tentativa, é a minha vontade, é o meu desejo nesse trabalho. E eu sinto que a plateia transcende a história de ser um gay que fez sei lá o que no passado. Elas entendem que se trata de um pai em busca da aceitação e do amor do filho. E eu sinto isso da plateia, eu escuto pelos gritos, eu escuto pelas palmas, eu entendo que eles entenderam isso. E isso, sim, eu acho que tem uma função transformadora, que não é um levante de bandeira, que não é panfletária e que poderia ser muito chato se fizéssemos assim.
Mr. Zieg - Antes da estreia do Priscilla, o Dean Bryant [diretor associado do espetáculo], disse estar impressionado com a relação forte que você construiu com o seu filho, em cena. Disse que os outros atores que fazem o Tick ao redor do mundo são mais velhos e têm filhos, mas que – mesmo tendo uma realidade diferente – você conseguiu criar um elo ainda mais forte.
Luciano Andrey - Eu não sou pai, mas eu sou ator. Então, no Priscilla, eu sempre tive receio que esse personagem se perdesse na história, o que seria muito fácil porque tem muita música, muita cor, brilho, um ônibus em cena… Muita coisa para competir com a história. Então o que eu faço desde o começo – um exercício de ator – é não perder desde o primeiro momento que eu piso em cena a relação com o filho e a preocupação do personagem com o passado. Então todos os dias eu sinto – no bom sentido, porque tenho pavor de ator possuído – que manter essa linha de raciocínio durante o espetáculo me ajuda a ter essa relação com o filho.
O objetivo do meu personagem é muito claro: partindo de um telefonema da mulher, ele chama a Bernadette, a Felicia e vai para o deserto para conhecer o filho. Não tem muito o que pensar. E eu não consigo imaginar, na minha vida, como seria isso, de ser uma drag queen, ter um filho, ter abandonado. É muito distante da minha realidade, não consigo imaginar como eu me sentiria. Não tenho filho, não sou drag queen. Então eu tenho que vivenciar aquela experiência, que para mim faz toda a diferença. Na peça tem três crianças que interpretam meu filho, o Ricardo, o Pedro e o Lucas, e cada dia é diferente porque cada um me dá uma coisa diferente. Cada dia é uma pessoa diferente me olhando, cada dia é um olhar diferente… Porque eles ensaiaram e aprenderam uma coisa nova, ou porque eles pensaram uma coisa nova para fazer, porque eles já têm essa inteligência, então cada dia o olhar deles me alimenta de uma forma diferente. É a relação que me alimenta. Eu acredito muito nisso. Se tem uma coisa que eu acredito é que o teatro é feito na relação. Se eu não tiver essa capacidade de jogar com os meus colegas em cena, de desenvolver essa relação, de olho no olho, a coisa não acontece.
Mr. Zieg - Em todos os musicais que vocês fez, você trabalhou com a Tania Nardini, que é a diretora residente do Priscilla…
Luciano Andrey - Os diretores gringos ficaram impressionados com ela! Ela é uma das pessoas que mais me inspira diariamente. O único trabalho de teatro musical que eu fiz sem ser com o Jorge Takla [com quem a Tania trabalhava], foi o Priscilla. E ela está nele. Então ela me acompanhou por tudo o que eu fiz. A Tania tem uma generosidade enorme e, mesmo com tanta bagagem, ela não tem medo de errar, de se transformar, de entender as coisas dela e de passar isso para as pessoas. E ela tem uma visão de teatro muito parecida com a minha. Teatro musical é teatro. Então ela está sempre ali assistindo ao espetáculo, e todos os dias ela vem falar alguma coisa que te acrescenta.
Quando eu olho para a minha carreira e a vejo me falando da cena em que eu retirava a gaiola no My Fair Lady, eu tenho certeza que ela realmente acredita que teatro se faz com todo mundo, com equipe técnica, atores, produção. E que se um destes mecanismos falhar, vai ficar capenga. Ela entende isso como um mecanismo pulsante e único. Então ela é uma inspiração como pessoa e como profissional. Os gringos falaram que nunca tinham encontrado uma diretora associada como a Tania Nardini. Eles trabalharam na Broadway, no West End, mas disseram que nunca tiveram alguém como ela, que entende de luz, de interpretação, de coreografia, de ser humano e consegue fazer tudo sem precisar gritar, sem ficar louca. É uma pessoa que eu admiro muito, que todo mundo deveria ter oportunidade de trabalhar.
Mr. Zieg - O que é mais difícil no Priscilla?

Ruben Gabira, Luciano Andrey e André Torquato cruzam o deserto australiano em ‘Priscilla’ (Foto: Divulgação)
Luciano Andrey - Acho que é a mistura de tudo. O Priscilla é um dos espetáculos mais difíceis que eu já fiz e, ao mesmo tempo, um dos mais prazerosos. Ele exige muito fisicamente, você sai de um número com um salto que não te ajuda, com uma roupa que não te ajuda, cantando, gritando, pulando… E em seguida já entra para cantar o True Colors, que é uma música pequenininha, intimista, em que o personagem está emocionado, com a voz em outro lugar. Mas o trabalho do ator é treino, então você aprende a lidar… Mas é muito detalhe, a peruca tem que estar no lugar certo, o salto, o espartilho que aperta, a maquiagem, a energia feminina aliada à masculina, você tem que estar com emoção… É um trabalho diário. Mas o mais emergente é manter todas as relações em estereotipar.
Mr. Zieg - Dá tempo de alguma coisa na coxia?
Luciano Andrey - Nada. Às vezes nem de tomar água. Às vezes tem um colocando seu sapato, outro ajeitando sua peruca e outro segurando seu queixo com uma mão e virando a garrafa d’água com a outra. Só tenho um momento durante a peça em que eu consigo olhar no espelho. Tanto que eu já entrei com o zíper aberto.
Mr. Zieg - As pessoas estão te reconhecendo na rua?
Luciano Andrey - Sim. Assim como o André, eu mostro a cara o tempo todo, né? Então as pessoas reconhecem, mandam mensagens pelo Facebook, pelo Twitter (@luciano_andrey). Um dia na rua foi engraçado porque a gente tinha feito a primeira apresentação, em um domingo, e no dia seguinte eu parei para comer um misto-quente num boteco. Passou uma menina, uma menina bonita, eu olhei pra ela e continuei comendo meu lanche. Daí ela parou, voltou, tirou os óculos e perguntou: “você não faz Priscilla?” A gente só tinha feito uma sessão e ela tinha visto! Está sendo muito legal o reconhecimento – não de ser parado na rua – mas o reconhecimento pela qualidade do trabalho. Tá rolando.
Mr. Zieg - Qual é o musical que te define?
Luciano Andrey - Dos musicais a que eu assisti, Billy Eliot é um musical que me toca muito. Acho que me define se eu pensar na identificação com o menino, que tinha um futuro predestinado e conseguiu subverter para fazer uma coisa que ele sentia na alma. Pensando friamente, o musical me toca. Ele tinha um futuro em vista que não era o que ele queria e, através da arte, que estava na alma dele, que não era uma coisa racional, ele conseguiu ir para onde queria. Então eu acho que Billy Eliot me define.













Tão jovem e com uma história de vida tão forte e inspiradora! Com certeza daria um belo musical, com muita emoção! Parabéns pelo seu talento, carisma e obstinação!