Rio de Janeiro: mil e seiscentas pessoas comparecem às audições de um musical da Broadway trazido ao Brasil por um famoso produtor. Uma equipe formada por ingleses, americanos e australianos supervisiona a montagem, idêntica à estrangeira. O papel principal é disputado pelas atrizes e cantoras mais famosas do país. O espetáculo se torna o maior sucesso teatral de sua época. O ano: 1983.
Evita, o musical baseado na vida da ex-primeira dama da Argentina, Eva Perón, nasceu em 1976 como um álbum de ópera-rock, assim como o trabalho anterior de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, Jesus Cristo Superstar. Quando chegou aos palcos de Londres em 1978 com Elaine Paige no papel-título, Don’t Cry for Me, Argentina já era um sucesso nas rádios do mundo todo. Um ano depois, era a vez de Nova York receber o musical, que conquistou sete prêmios Tony (incluindo Melhor Musical) e catapultou Patti LuPone ao panteão das grandes estrelas da Broadway.
Enquanto isso, o Brasil estava novamente fora do circuito dos musicais após uma boa safra dos anos 70 que incluiu o já citado Jesus Cristo Superstar, Godspell, The Rocky Horror Show, Pippin e o maior sucesso até então, Hair. Mas o faro do produtor carioca Victor Berbara mudou a correnteza. Pioneiro da TV e do teatro – foi ele o responsável por introduzir as primeiras montagens de musicais da Broadway no país com My Fair Lady (1962) e Hello, Dolly! (1966), ambos estrelados por Bibi Ferreira – Berbara comprou os direitos de Evita e convidou Maurício Sherman (atualmente diretor do programa Zorra Total) para comandar a montagem nacional.
A procura pela protagonista foi digna de Scarlett O’Hara: Christiane Torloni, Marília Pêra, Lucinha Lins, Sandra Bréa, Rosemary e Vanusa ficaram no páreo, mas a escolhida foi Claudia, até então uma cantora famosa na noite paulistana, mas desconhecida do grande público.
O elenco incluía nomes como o saudoso Carlos Augusto Strazzer, que impressionava com a fúria com que interpretava Che Guevara; Mauro Mendonça, como Juan Perón (o ator foi o primeiro Perón no mundo que rejeitou o nariz falso na sua caracterização); e duas figuras importantíssimas do teatro musical brasileiro, Vera do Canto e Mello (alternante de Eva) e Sylvia Massari (amante de Perón e Eva).
Por exigência de Robert Stigwood, produtor da montagem original, a versão brasileira deveria ser uma réplica da icônica encenação de um dos maiores mestres da Broadway, Harold Prince. E foi. Quer dizer, quase foi. Uma equipe estrangeira supervisionou cada detalhe da montagem, seguindo um diário da produção original apelidado de Bíblia – item fundamental nas montagens-réplicas no Brasil atualmente. Mas nem a equipe estrangeira conseguiu deter Sherman de criar um novo final apoteótico em que o elenco voltava ao palco para cantar Não Chores por Mim, Argentina.
Na época não existia o know-how que hoje em dia artistas e técnicos adquiriram com a profissionalização do teatro musical no país. O texto era uma adaptação direta da versão espanhola. O ensemble (coro) incluía desde cantores de coral a dentistas, um ginecologista e um procurador federal. Não existiam muitos artistas que cantavam e dançavam e, num espetáculo com uma partitura tão exigente, a coreografia ficava de lado.
Apesar de todas essas dificuldades da época, Evita estreou no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro com grande sucesso. A resposta do público foi tão calorosa que, apenas um mês após a estreia, Evita estampava a capa da revista Veja – feito que até hoje não se repetiu. O disco, lançado pela gravadora Som Livre, também foi sucesso de vendas – outra prática que raramente se repete hoje em dia, infelizmente.
Claudia se tornou figura carimbada em programas de TV, sempre interpretando a canção que até hoje é o maior sucesso de sua carreira. Ela não era atriz, nem dançarina, mas sua voz a faz ser lembrada pelos fãs do mundo todo como uma das melhores Evitas de todos os tempos.
Três anos depois, o espetáculo foi montado no Palace em São Paulo, com Claudia encabeçando um novo elenco, que incluía Elymar Santos (Che), Francisco Campos (Perón), atualmente professor de canto na USP, e um bailarino que viria a se tornar um dos grandes coreógrafos brasileiros da nossa época, Alonso Barros. Mais uma vez, o público respondeu com entusiasmo, tornando Evita um dos maiores sucessos teatrais da década de 80.
Seria necessária mais de uma década para que os musicais voltassem a florescer no país, mas Evita provou que o público brasileiro sempre teve apetite de teatro musical e os artistas que fizeram parte daquele espetáculo abriram corajosamente os caminhos para os artistas que hoje fazem musical com talento e know-how. Que isso nunca seja esquecido. Viva Evita!







Excelente artigo. Muito bom lembrar que teatro musical no Brasil não é “coisa nova” como muitos pensam.
Verdade! E muito bom ver que a cada ano, esse mercado cresce e cada vez mais se profissionaliza!
É muito importante resgatar a história do nosso teatro, musical não é novidade no Brasil como muita gente pensa.
Eu vi no Palace em 86!
Invlusive quem estava na orquestra era nosso querido, hoje diretor musical de Priscilla, Miguel Briamonte.
Montagem linda cenograficamente.
Abrs
Elimar Santos fez Che? Nossa… Nao tem video?